segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

JUSTIÇA VAQUEIRA

Justiça vaqueira

O povo brasileiro sente nas ilhargas a dor concentrada das esporas que fazem pular aos cavalos, correr aos touros e assustar aos cabritos, quando o vaqueiro, acima de qualquer lei, impinge sua superioridade sobre eqüinos, bovinos e caprinos, obrigando-os à castração e enviando os ovos ao espaço. Para deixar claro que não são machos o bastante para desafiar o poder do chicote na vaquejada pisoteante que se realiza quase todos os dias no Supremo Tribunal Federal.

É esse o sentimento que atinge as vítimas sodomizadas nas currutelas jurídicas, enquanto Eros Grau, entre tantos outros graus e tantos outros Eros, assim uniformizado vaqueiro pelo deputado Domingos Dutra, transforma a corte suprema do país num curral de José Sarney, enchendo os alforjes e zombando da consciência nacional.

Outra vez a história, da qual não é ele o único ministro protagonista, de duas ou três decisões mutantes sobre o mesmo fato jurídico, a por em xeque a licitude da própria lei, a deixar patente que crer na Justiça deste país é acreditar na existência de chifres em cabeças de cavalos e crinas em lombos de bois.

E Eia, aiô Silver, avante! O Zorro de barba é um paladino da injustiça porque a dignidade da magistratura é servida no mesmo coxo onde os vaqueiros bem pagos servem ração com ilegalidade, uma mistura indigesta que faz vomitar homens, cavalos e bois.

Difícil discernir entre o que é tribunal e o que é cangalha, entre o que é juiz e o que é vaqueiro, em meio a uma Justiça que em nós coloca arreios, na pertubante vaquejada em que o próprio Supremo Tribunal puxa a lei pelo rabo como se a Constituição do país fosse uma rês.

E o povo brasileiro, posto os estribos nas costas, selado e esporado, balança os chocalhos para que o Senado e a Justiça se divirtam com sua covardia e timidez.

Os magistrados riem, tangendo uma comitiva de muares, conscientes de que são tropeiros de bestas que ainda cumprem decisões judiciais.

“Gado a gente marca, tange ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”. Não no Brasil. Aqui o povo é marcado por seus proprietários, é ferrado na engorda, é tangido a golpes de chicotes, seguindo rotas que desconhece, porque não há valor nas leis escritas. Os vaqueiros, dependendo do desejo dos donos das fazendas, ditam as leis. E a cavalhada segue, a boiada acompanha, a cabritada não berra, convencidas de que isto aqui é uma coivara, um cercado, nunca um país.

O medo, o desespero destes animais encurralados, a descorna, a sensação de impotência diante dos gibões de couro que chamam togas. Um poder acima de qualquer boiada, acima de qualquer multidão de cavalos, a comandar os peões armados da República que fazem cumprir a lei da taca civil, porque neste indigesto momento da História não existem outras leis no Brasil.

Aiô, Silver, avante! O Supremo Tribunal Federal cavalga o povo, tange o gado, porque os fazendeiros senadores precisam descansar.

Triste destino de ouvir berrantes, sem direito de falar. Toca o berrante, Eros Grau.

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